Invento permite operar pacientes que não poderiam passar por cirurgia convencional

Uma parceria entre o Instituto de Química da Unesp em Araraquara e a Braile Biomédica, indústria localizada em São José do Rio Preto (SP), deu origem ao primeiro transcatéter de válvula cardíaca brasileiro. O produto feito de material orgânico (pericárdio bovino) é indicado para a operação de estenose aórtica calcificante em pacientes em situação de alto risco e que não poderiam passar pela cirurgia convencional.
A operação tradicional abre o peito do paciente para fixar a válvula. Para isso, o coração precisa ficar parado por um período significativo, o que pode representar um risco considerável para pessoas com idade avançada ou baixa imunidade. Por essa razão, alguns pacientes com essa doença são classificados como inoperáveis e não recebem o tratamento necessário para desobstruir a artéria danificada. A cirurgia minimamente invasiva, como é chamado o procedimento realizado com o novo protótipo, requer apenas uma pequena incisão abaixo da costela ou na virilha. Através dessa abertura, o cirurgião implanta a válvula no interior da artéria e aciona o mecanismo que expande e permite a retomada da circulação no local.
Em todo o mundo, havia apenas dois produtos que permitiam o procedimento pouco invasivo, ambos de fabricação norte-americana. Com a chegada do modelo brasileiro ao mercado há cerca de dois anos, o preço da válvula despencou de R$ 120 mil para quase R$ 70 mil. Desde 2011, foram 250 cirurgias no país com o modelo nacional, e todos os casos estão sendo monitorados para medir a longevidade após o procedimento e a qualidade de vida dos pacientes.
Atualmente, os consumidores dessa válvula são hospitais particulares e planos de saúde, já que o Sistema Único de Saúde só poderá adquiri-la após validações que incluem o acompanhamento dos pacientes operados a médio prazo. A expectativa do fabricante é que, quando for incorporado à lista de equipamentos pagos pelo SUS, o produto ajude a forçar o preço para baixo, permitindo que mais médicos optem por cirurgias menos arriscadas. "Esse novo transcateter só não é usado em todas as cirurgias de estenose por conta do preço" explica Agrelli. "Nossa expectativa é que, no futuro, abrir o corpo do paciente para um implante como esse seja cada vez mais uma ideia superada".
Cooperação

A Inovare Válvula Transcateter, como foi batizado o dispositivo, é um biomaterial por ter em seus componentes matéria-prima biológica, no caso, o pericárdio bovino, uma estrutura fibrosa que reveste o coração e é mais compatível com o organismo humano do que similares sintéticos. A criação recebeu em 2012 o prêmio de inovação da Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios).
Inicialmente, a participação da Unesp no projeto permitiu desenvolver o mecanismo que faz com que a válvula se expanda após a fixação. Trata-se de uma estrutura metálica, finíssima, cortada a laser e que envolve a válvula.
A empresa veio até nós com essa primeira dificuldade técnica. A partir daí, passamos a pensar em conjunto como aplicar conhecimentos da área de engenharia de materiais à realidade daquela indústria e daquele mercado, lembra o professor Antonio Carlos Guastaldi, fundador e coordenador do Grupo de Biomateriais do Instituto de Química da Unesp em Araraquara. Honestamente, a criação dessa válvula foi o trabalho mais significativo de toda a minha carreira. Ver minhas pesquisas sendo usadas para salvar vidas é gratificante.
As companhias em geral não têm o preparo necessário para a interação com a universidade porque ainda estão presas a conceitos equivocados, afirma Guilherme Agrelli, gerente da Divisão Endovascular da Braile. Ele destaca que hoje o país conta com mais possibilidades de financiamento para quem quer investir em inovação, via Bndes ou Finep, além do programa RH nas empresas do CNPq, que dá bolsas para manter um pesquisador atuando dentro da indústria. O importante é procurar a universidade com um projeto claro, buscando uma consultoria oficial ou ter um profissional que faça exclusivamente investigações científicas na empresa, e não um quebra-galho, como é mais comum.
Para o gerente, uma postura mais pró-ativa da indústria no investimento em Pesquisa e Desenvolvimento pode evitar problemas quanto à proteção do conhecimento e aos direitos de propriedade intelectual, segundo ele, os maiores obstáculos ao bom entendimento entre academia e empresas.
A cooperação da fabricante com o grupo do professor Guastaldi continua. Eles esperam criar superelásticos materiais que mudam de forma com a mudança de temperatura e, nesse caso, também teriam aplicação na área médica. Outro projeto em parceria deve trazer ao mercado mecanismos de liberação controlada de medicamentos no organismo, um dos mais promissores campos de pesquisa em biomateriais.
Saiba mais

A interação entre as universidades e a indústria de biomateriais foi tema de um workshop realizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Prope) em agosto. O Jornal Unesp deste mês trará uma matéria sobre as principais dificuldades do setor no país e como a Unesp está criando redes para fortalecer suas pesquisa nessa área. A edição estárá disponível a partir do dia 16/09 em http://www.unesp.br/jornal .
(Ascom)