![]() |
| Foto: Passarinho |
Na recepção ao filósofo, o reitor Anísio Brasileiro deu o tom das discussões em torno do novo Estatuto e afirmou, para uma plateia de professores, técnicos administrativos, gestores e alunos, no auditório do CCSA, que “a gestão visa um estatuto moderno e adequado para uma instituição que seja plural, ousado e que transgrida o cotidiano conservador e todas as formas de autoritarismo; que prime pela qualidade e que esteja próximo da sociedade”. Já o vice-reitor Silvio Romero Marques, coordenador do processo estatuinte, destacou a importância da participação de toda a sociedade nessa discussão. “Qualquer carta ou regulamento que seja construída sem participação ampla dos envolvidos, ou seja, sem legitimidade, perde o seu valor”, ressaltou.
Para Janine Ribeiro, o processo de construção da peça regulatória deve contemplar reflexões sobre “como a universidade é vista de dentro, como a universidade é vista de fora e como a universidade olha para fora”. Na perspectiva interna, o filósofo analisa com cautela a pós-graduação e se preocupa, especialmente, com algumas iniciativas. “A formação de grupos de pesquisa é mais importante do que o estímulo a pesquisadores isolados, por mais relevantes que eles sejam”, afirmou. O professor ainda apontou “uma preocupante queda de prestígio do mestrado, uma vez que o acesso à docência está condicionado ao doutorado”, como ponto necessário a ser tratado.
DOUTORADO – O doutorado, aliás, é outro aspecto que mobiliza a atenção do filósofo, que entende ser melhor formar menos doutores com foco na pesquisa, a “perder-se tempo e investimentos” em quem não será pesquisador. “O que fazer para evitar esse desperdício de doutores?”, provocou. Como desafio para contemplar o desejo de quem realmente quer pesquisar, o filósofo sugeriu parcerias entre as Instituições de Ensino Superior (IES) para criação de grupos e a abertura de mais vagas para pesquisadores o que, segundo ele, não vem ocorrendo com as unidades interiorizadas dessas entidades.
Como subsídio para nortear as discussões, Renato Janine Ribeiro instigou novamente ao questionar para onde caminha a graduação e afirmar que, de fora pra dentro, a universidade é encarada como instituição de formação de graduados para exercício de profissões. “Devemos levar em conta que a realidade hoje é outra e que o jovem pode mudar de profissão, de estado civil, de concepção de mundo e de país”, disse. De acordo com ele, as universidades líderes formam entre 3 mil a 10 mil graduados por ano, “o que está muito aquém da necessidade do mercado”. E completou: “temos que levar em conta que o mundo hoje oferece muito mais do que antes, além de que muitos jovens quando ingressam na universidade sequer conhecem todas as opções de habilitação”.
Como alternativa a esses dilemas, Janine Ribeiro levantou hipóteses a serem consideradas: rever o papel do diploma para algumas profissões (“Eles validam as profissões?”); diplomas com prazos de validade (“Para alguns casos, pode-se exigir atualização periódica de conhecimentos.”) e formas diferentes de aprendizado (“Talvez graduar alunos sem exigir, necessariamente, o cumprimento das rígidas grades curriculares.”).
O filósofo recomendou que a universidade, ao olhar pra fora, foque suas iniciativas na cultura e extensão. “No caso de um estado como Pernambuco, essa visão se torna ainda mais importante”, defendeu. Neste contexto, a extensão, para Janine Ribeiro, também deve ser encarada como instrumento de formação para melhorar a sociedade, como contribuição para reduzir as desigualdades sociais. “A ascensão social vem se dando por meio do aumento do poder de consumo e não por meio do aumento de cultura e educação”, destacou, em tom de crítica.
METODOLOGIA – Até novembro deste ano, quando deverá estar pronto o Volume de Sistematização com todas as propostas colhidas a serem encaminhadas à apreciação do Conselho da Estatuinte (com 81 membros), a comissão especial vai visitar as Unidades Estatuintes da UFPE – constituídas pelos centros acadêmicos e órgãos suplementares – e promover audiências públicas (uma por mês) com a participação da sociedade civil, como representantes dos conselhos federais de classe e entidades de pesquisa. “Neste momento está sendo definida a agenda dos encontros”, adiantou o vice-reitor Silvio Romero.
Segundo o professor Janine Ribeiro, a metodologia definida para a reformulação do Estatuto da UFPE por meio de um processo que teve início em novembro de 2011, e já aprovada pelo Conselho Universitária, “é pioneira no país, sobretudo pelo seu caráter democrático, prevendo o amplo debate com toda a sociedade”. O filósofo é membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Estudos Avançados da USP e pertenceu a sua Comissão de Atividades Acadêmicas e a seu Conselho de Ética. No âmbito das artes e cultura, é membro do Conselho Consultivo de Inhotim.
(Ascom)


